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Olhar Espelhado

Atualizado: 29 de set. de 2024


Espelho vintage escrito Olhar Espelhado episódio 1
Série de 3 episódios - por Clara Ribeiro

Era uma tarde normal durante a semana, e Tatiana olhava para o vazio, tentando se concentrar no almoço que precisava preparar pra família. Seus dois filhos menores disputavam quem escolheria o filme pra assistir, enquanto a filha mais velha continuava com a cara enfiada no celular, digitando sabe-se lá pra quem. O telefone tocou, e Tatiana correu pra atender, desconfiada da última vez que "ligaram errado" com voz de mulher (um tanto quanto sensual, se analisasse bem), enquanto ainda estava com o Fred. Atendeu o telefone, mas era um cara de telemarketing, não tinha tempo pra ligação, desligou sem avisar. Foi na geladeira pegar a cebola pra picar pro arroz, enquanto calculava que ainda tinha roupa pra tirar na máquina de lavar, pra poder colocar a maquinada com o uniforme das crianças sujo do dia na escola, torcendo pra que desse tempo dos outros pares de uniforme pendurados no varal secassem até a manhã seguinte antes da aula. Só que entre pegar a cebola, e pensar nos uniformes sujos pra lavar, Tatiana esqueceu que tinha aberto a porta do armário de cima da pia que ficava ao lado da geladeira, e deu de testa, com toda a força de quem estava se esforçando pra ser o mais rápida possível.

Caiu dura no chão.



Quando Tatiana acordou, não reconhecia o ambiente em que estava. Levantou da

cadeira, percebendo que o lugar, parecido com a casa de um sonho que teve quando era criança, tinham outras pessoas: uma adolescente, uma criança e uma senhora bem idosa.


Ajeitou a aparência pra parecer menos perdida do que realmente estava, sorriu pras

pessoas ali com cansaço típico de mãe. A senhora sorriu de volta, a adolescente percebeu a espécie de cumprimento mas ignorou, e a criança veio correndo falar com ela.


- Oi! Como você chama?


- Oi lindinha! Eu sou Tatiana. E você?


- Tatiana? Eu também sou Tatiana!!! Ebaaaa!!! - e saiu correndo em círculos.


Tatiana ficou confusa, achou a menina muito parecida com ela mesma quando era criança. Sacodiu a cabeça pra sair de seus pensamentos, e lançou olhar para as outras duas, pra tentar entender o que estava acontecendo. A adolescente notou na hora que estava sendo observada.


- Nossa, as vezes adulto é burro mesmo, né? Você não tá percebendo nada não??


- N-Não - balançou a cabeça negativamente, supreendentemente intimidada pela aspereza da moça.


- Hahaha! Não acredito, a pirralha tá mais ligada que você.


- O que tá acontecendo aqui? O-onde a gente tá, gente? Acho que dormi muito fundo! Eu bati a cabeça?


- Você morreu! - disse de supetão arregalando os olhos.



Tatiana caiu sentada na cadeira de que tinha acabado de levantar.


- Menina, não faça assim. Você não iria gostar que fizessem isso com você. - A velha resolveu interceder.


- Não gosto mesmo, e meus pais fazem sempre. Me proibem de fazer tudo o que eu gosto... é a morte pra mim!!


- Então se você não gosta não reproduza! Ainda mais com você mesma! Imprudência!


A mocinha baixou a sobrancelha arqueada e fechou a cara, subindo os fones pro ouvido.


Tatiana achava que ia vomitar, ou ficar sem ar, ou ter uma parada cardíaca, alguma coisa ia acontecer, porque aquela situação era uma loucura.


- ...senhora, aqui é o... Aqui é o purgatório? - Sussurrou pra senhorinha idosa.


- Tatiana, amor, olha aqui nos meus olhos!


Tatiana estranhou, mas obedeceu assertiva. Olhou bem fundo nos olhos da velhinha, e quase caí pra trás de novo:


- Que porra é essa?? É um espelho??


- Hahahahahahaha! - Riram todas as Tatianas em uníssono, menos a adulta.


- Você é eu, ela é eu, e ela é eu, todo mundo eu! - explicou a criança.


- Somos todas você, Tatiana. Nossa essência é a mesma, somos a mesma mulher em tempos diferentes da vida. - disse suave mas firmemente a senhora idosa, fazendo carinho no cabelo da criança.


- Como assim?? - Tatiana adulta olha pra todas as suas versões, incrédula - Como vocês

são eu mesma, se eu não consigo lembrar de ser assim?


- Hahahaha! Tão dona da verdade que nem sabe quem é! - caçou a adolescente, espinhosa.


- Nossa, como você é grossa! Eu não era assim, não!!


- Tati, calma. Aceita, é você. Você se perdeu tanto nos outros que esqueceu de quem você é. Essa adolescente revoltada, ferida, é parte de você. Aquela criança que tá ali no canto desenhando e você nem notou, é você. Essa velha que você olhou no olho e não quis se ver, é você. Sou você. Somos você.



(fim do episódio 1)

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