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Olhar Espelhado

Olhar espelhado, série de 3 episódios por Clara Ribeiro
Série de 3 episódios - por Clara Ribeiro

O mundo girava visivelmente aos olhos de Tatiana adulta. Parecia que tudo

era um turbilhão prestes a se desfazer, mas não se desfazia. De segurar a cabeça dando suaves gritos a rodar olhando ao redor, Tatiana percebeu que o mundo continuava o mesmo, por mais que forçasse o vomito mental. Desistiu e sentou de novo. Na mesmíssima cadeira.


- Então o quê? Eu morri? Digo, a gente...?


- Eu não! Hahahahaha!! - A adolescente não fazia questão de ser agradável.


- Não. Eu estou bem velha, mas ainda não morri. Nenhuma de nós morreu.


- Então do que se trata? Porque estamos aqui? ...é alguma armação? Pegadinha? - disse

procurando por pistas, olhando pra criança. - Não, não tem como ser. Realmente, sou eu essa criança.


Parecia tudo muito confuso, e muito concreto. As Tatianas todas se puseram em indagação. Porque estavam ali vivendo aquele conflito?


- Já sei. - disse a adolescente baixando a crista e o fone de ouvido - Você tá sentindo um nó na garganta, um aperto no peito que parece um elefante em cima de você. Parece que você vai explodir por dentro, e você não sabe o que fazer, pra quem contar. Porque todo mundo que você procura pra conversar sobre isso fica dizendo que você é sortuda de ter o que tem e que não deveria reclamar.


- ...é! Eu me sinto assim, sim. Como é que você... Você sabe, né?


- Sei. Eu me sinto assim. Talvez nunca tenha passado, já que você ainda sente. Talvez nunca passe, essa é a real!


- Passar passa, porque eu não me sinto assim, e confesso que não lembrava que já tinha me sentido dessa forma. - disse a velha.


- Sentiu!!! - responderam em uníssono a Tatiana adolescente e a adulta.


- Então... Se eu não sinto mais, é porque deixou de existir o sentimento. Curamos. Mas como? - perguntou a Tatiana velha.


A Tatiana adulta tentava fazer os cálculos mentais, e a adolescente interrompe:


- Já sei!!! Só se for um daqueles casos de filme que o dia fica se repetindo, e só quando o protagonista descobre o motivo, o dia para de se repetir.


- Que??? - Perguntou ácida a adulta, já aprendendo com a adolescente.


- Ela tem razão, Tati... Pense bem. Estamos num momento místico aqui. Onde estamos, que sala é essa?


- É a sala do meu sonho! Conheço muito bem essa casa toda! Eu lembro dela! - Disse a pequena, sem se distrair do desenho.


- Então porquê, meu Deus...? - Tatiana adulta abrandou as emoções pra começar a juntar as pistas. - O que a gente sabe aqui? Que todas nós somos a Tatiana; que... Tem essa emoção que eu adolescente e a eu de agora sentem, mas eu mais velha não sinto...


- Essa é intrigante. Porque vocês... a gente... eu, me senti assim mais jovem? - perguntou a mais velha.


- Porque os idiotas dos meus pais não entendem nada de mim, não querem entender, e

ao invés de tentar entender, eles se cobrem de autoritarismo e me colocam de castigo por qualquer coisa!!!


- Calma lá, mocinha! Eu sei que a gente se sente assim, mas eles só estavam tentando me criar! Educação exige imposição de limites, eu precisei de limite... - disse a adulta.


- Limite esse que te podou!!! - interrompeu a adolescente - O que é chegar uma hora mais tarde do combinado?? Motivo suficiente pra me proibir de fazer qualquer coisa que eu gosto?? Eu amo pintar, mas amo mais ainda estar com minhas amigas, e a galera

toda, os rolos... Po!! Vou viver a vida toda enjaulada??


A Tatiana adulta correu pra amparar a Tatiana adolescente que entrou em prantos. A Tatiana criança correu pra abraçar as duas.


- Acho que a gente tá fazendo progresso aqui, meninas. - disse a senhora - Acolher os nossos sentimentos é fundamental pra gente conseguir se curar. Mas essa tristeza porque ficou sem fazer o que gosta durante o tempo de um castigo? Que eu me lembre eu voltei a pintar, e contínuo pintando. Desde que os meninos saíram de casa que eu e meu marido viajamos ao redor do mundo, vendo paisagens inspiradoras, buscando novas ferramentas, diferentes pigmentos...


- Jura??? - Se surpreendeu a Tatiana adulta - tem anos que não sei o que é pintar. Desde que sou mocinha, na verdade. Tinha aquele professor gato de pintura, lembra? -

perguntou pra adolescente


- Ô...! - confirmou com sorriso de lado, enxugando as lágrimas com a manga da camisa - mas a gente nem fez as aulas direito, porque a mãe achou que a gente tivesse se pegando.


- E tava! - Disse a adulta, e as duas caíram na gargalhada!


- Então a adolescente pinta, a velha também, e a criança desenha. Só eu que não. Não tô fazendo nada... Também, em que tempo?


- Minha filha, posso perguntar uma coisa? - quis saber a Tatiana velha.


- Pode, claro! Por que pergunta?? Tamo aqui tentando desfazer esse nó temporal, qualquer pista é válida! - apressou Tatiana adulta.


- Pergunto porque é profundo, se doer, estamos aqui. - a velha respirou fundo e perguntou com seriedade e olhar de espelho - Você não está feliz, não é?


- Claro que estou!!! - retrucou - Tenho uma família linda, três filhos que eu amo, uma casa maravilhosa que eu comprei com o dinheiro do meu trabalho. Não é o trabalho mais divertido do mundo, mas qual trabalho é? O importante é que eu sou boa, ganho bem, tenho reconhecimento profissional! O que eu quero mais? Um amor? Já tive dois, tô esperando o terceiro!


- Você não tá feliz, moça. - disse a menina que estava agora em sua frente, olhando em seus olhos com os mesmos olhos de espelho da velha.


Tatiana adulta caiu no choro. Chorou, chorou, chorou de soluçar. Copiosamente. As Tatianas todas vieram abraçar, e ficaram abraçadas pelo tempo que o choro precisou demorar.


(fim do 2º episódio)

 
 
 

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