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Olhar Espelhado


Olhar espelhado, série de 3 episódios por Clara Ribeiro
Série de 3 episódios - por Clara Ribeiro

Saindo uma a uma do abraço como as pétalas de uma rosa se abrem, a Tatiana adulta, ergueu a cabeça, respirou fundo, com os olhos cheios de amor e lágrimas, e falou com a voz trêmula de emoção:


- Eu não estou feliz. Eu nem sei o que me faz feliz. Acho que nem sei mais quem eu sou. Vejo vocês em diferentes fases dessa minha, todas existindo com tanta propriedade! Com tanta personalidade, que eu não vejo em mim agora! Acho que eu sinto até inveja de quem vocês são, porque eu não consigo ser assim! A ponto de desacreditar que você seja eu no futuro, senhora!


Deitou a cabeça no colo da velha, enquanto a adolescente a abanava com um leque improvisado de papel dobrado, e a criança desafivelava o sapato de salto pra deixar a adulta mais confortável.


- Somos todas uma. Ainda assim tão diferentes! Veja, Tati, cada uma de nossas fases tem uma parte de toda a sabedoria pra lidar com a vida. Já fomos criança, adolescente, você adulta, eu velha, no entanto estamos todas aqui, juntas.


Tatiana levantou a cabeça com cuidado, pra não perder o fio de luz em sua percepção.


- Talvez o segredo seja manter o contato com todas essas fases, manter viva a criança, a

moça e a senhora em mim. - Disse isso e fechou os olhos virando o rosto pra cima e sorrindo, como quem vai alcançar a iluminação. E olhando ao redor e desmanchando o sorriso - ainda tô aqui? A visão não se desfazia com a epifania?


- Não é filme, né cabeção? Nem você pegou a epifania ainda! Tá toda travada aí, com as rugas todas marcadas na cara. Se isso é ter epifania, eu não sei o que é, então.


- Você tem razão, Tatiana. Ela ainda não percebeu o principal. - disse a velha


- O que é o principal? – perguntou Tatiana adulta revoltada.


- VOCÊ!!! - disseram a criança, a moça e a velha em uníssono.




Um grande branco se dá, e Tatiana acorda deitada na cama do quarto da enfermaria do hospital. Os filhos estão ao redor dormindo na cama do lado, a filha em pé ao lado da cama, com os olhos cheios de lágrimas.


- Mãe!!! Você acordou!!! Você tá se sentindo bem? Lembra o que aconteceu?


- Filha... Não lembro de nada... - disse Tatiana com os sentidos despertando aos poucos.


- Você bateu a cabeça e caiu... Você... Sabe quem é você? Lembra das coisas?


Tatiana riu com uma risadinha interna.


- Sei quem eu sou sim, filha. Mas me conta, eu bati a cabeça... na cozinha, não foi? Cai, e aí? Apaguei?


A filha de Tatiana contou como tudo aconteceu, como conseguiu chamar a ambulância e levar a mãe pro hospital, e de como depois teve que voltar em casa de táxi pra buscar os irmãos que ela esqueceu em casa vendo tv e que nem perceberam o que tinha acontecido, e que também tinham passado a noite inteira ali do lado esperando a mãe acordar.



Depois que saiu do hospital, Tatiana levou os filhos pra casa, e mudou completamente sua vida, sua rotina. Entrou na aula de pintura, saiu do trabalho pra abrir a própria empresa, uma loja de material de arte. Foi lá que conheceu um professor de violão que ofereceu aulas em troca de seus quadros. Um desses quadros um dia foi o presente pra um dos melhores amigos do professor, que quis irremediavelmente conhecer a autora do quadro que tinha mudado o ar de seu apartamento sem graça, lembrando ele de ser mais leve e colorido. Tatiana e o melhor amigo do professor de violão se conheceram, Tatiana mostrou seu ateliê e suas pinturas pra ele, que ficou impressionado, não com os quadros em si, mas com o poder de atração que Tatiana e sua existência exerciam sobre ele. Se beijaram e se namoraram em meio às tintas, até o alarme tocar avisando a hora de buscar as crianças na escola. O misto de paixão com amor era inegável, e eles continuaram se vendo, até que o namorado pede Tatiana em casamento. Os dois se casam e criam os filhos de Tatiana, entre convenções de arte, festas de aniversário, acampamentos no quintal de casa, e ensaios da banda da família, onde cada um aprendia a tocar um instrumento. As crianças cresceram, saíram de casa, Tatiana aprendendo cada vez mais sobre o universo que havia dentro si mesma, sendo feliz viajando o mundo ao lado de seu companheiro, explorando novas paisagens, buscando novas ferramentas e diferentes pigmentos pra suas pinturas.




(Fim)

 
 
 

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